beatriz @ 20:37

21/4/13

Aos poucos vou-me lembrando de tudo, vou-me lembrando dos beijos na testa, das mordidas no nariz, vou-me lembrando dos toques na cintura como se fosse tua, dos olhares trocados, dos abraços vindos do nada mas que eram tudo, da respiração perto do pescoço, das mãos dadas às escondidas, dos inúmeros lanches que me fizeste porque eu te obrigava, das marcas que ficavas quando te mordia, das secas que apanhavas por eu estar a jogar, dos pedidos de atenção que me fazias e eu dizia-te sempre o mesmo: "deixa-me jogar só mais um pouco", das vezes que a tua mãe existia para ires fazer o meu lanche e eu dizia que não era preciso, das idas para a piscina que tu tremias de frio, de eu querer jogar, perder e embirrar contigo porque não conseguia passar o jogo, como se a culpa fosse tua, era sempre tua acima de tudo, vou-me lembrando também das vezes que te fiz andar mais que alguma vez andaste, de embirrar porque estava chateada, das vezes que jantaste comigo, de eu ter medo do teu pai e a tua mãe dizer-me "dá um beijo ao sogro" e eu rir e rir envergonhada, vou-me lembrando das vezes que pedi para me fazeres e traduzires textos, das vezes que o teu cão me enchia de baba, de quando me dizias "trata-me bem estúpida" com aquela cara de cachorro a pedir mimos, das chamadas a toda a hora até eu adormecer, de quando te obrigava a ouvir aquelas músicas de pretos que tu refilavas, de jogar às cartas contigo e ganhar e tu dizeres "deixei-te ganhar", de ficar com o teu cheiro, de teres a enorme paciência para me aturares. Sabes eu vou-me lembrando aos poucos de todas as pequenas coisas que eram nossas e sinto saudades, saudades de te ter perto mesmo sabendo que muita coisa mudou, da tua parte e da minha, mas essencialmente sinto já saudades dos carinhos e cumplicidades, sinto saudades de falar contigo como se ainda fossemos o que éramos e dos tempos que não discutiámos e faziamos milhões e milhões de planos para o futuro sem pensar no fim, dos nomes queridos e dos sorrisos parvos. Mesmo sabendo que tudo é diferente, acima de tudo eras e és um amigo e como tal o teu carinho faz-me falta. "Só damos valor quando perdemos" e eu precisei de afastar-me para perceber que em ti posso sempre confiar e refugiar-me quando necessitar. Amo-te como amigo.